Quarta-feira, 27 de Junho de 2012
publicado por JN em 27/6/12

DIÁRIO, Jornal de Letras de 27 de Junho de 2012

Angra do Heroísmo, 6 de Junho de 2012

Aterro no Aeroporto das Lajes e nem tenho tempo para ir tomar um duche: a Catarina segue para casa com as malas, eu vou directamente para a Conferência da Autonomia – Cidadania e Cultura, de que sou conferencista e moderador. Ao fim de dezasseis anos de poder ininterrupto, a governação socialista açoriana prepara-se para cair de podre. Para trás fica década e meia de um exercício que começou bem, mas se degradou depressa. Os Açores de hoje lideram (ou disputam a liderança em) quase todos os piores índices nacionais: o consumo de álcool, a violência doméstica, a gravidez precoce, o usufruto do rendimento social de inserção. Pelos meus cálculos (não há estatísticas oficiais), mais de um quinto da população vive agora de subsídios à sobrevivência. Eleitoralismo, populismo, laxismo – o cocktail é explosivo há demasiado tempo. Mas, desta vez, a oportunidade é clara. Berta Cabral, candidata do PSD, mobiliza a sério. E eu pretendo estar com ela até à vitória de Outubro.

 

Terra Chã, 7 de Junho de 2012

José Guilherme. Todos os anos regresso à casa dele. Durmo na cama onde ele dormiu, como nos pratos em que ele comeu, abro e fecho as portas e as janelas que ele abriu e fechou. O meu avô. Estou no pequeno jardim que instalei onde outrora ele tinha o quintal. Gostava que pudesse ver esta horta que plantei nos fundos. Gostava de mostrar-lhe a araucária, já quase da altura da casa (ainda bem que sou imune a superstições), e de discutir com ele os meus planos para pôr um jacarandá no lugar do araçaleiro que nunca se desenvolveu. Talvez devesse passar aqui um ano inteiro, a assistir a pelo menos um ciclo completo da natureza. Fazer uma horta a sério no cerrado grande, criar uma vaca no cerradinho de cima, a que chamamos Tira. Falta-me a coragem. Mas ainda tenho isto: estas estadas cada vez mais longas, em que combino a escrita para os jornais com a escrita de ficção e a contemplação da terra. Sou um tipo com sorte.

 

Angra do Heroísmo, 9 de Junho de 2012

Vejo o Portugal-Alemanha ao lado do meu pai. Julgo que não me engano se disser que a idade adulta começa no momento em que um homem é pela primeira vez capaz de admirar o seu pai. O meu pai. Tenho a certeza de que, por muito que me tivesse esforçado, e ainda que o houvesse mesmo feito, eu jamais teria conseguido ser durante cinco minutos metade daquilo que ele foi ao longo de toda a vida (e ainda é), sem uma hesitação, sem uma ressalva, sem outra intenção que não apenas sê-lo. Há vinte anos que comunicamos por elipses. Menos quando há futebol. O futebol é o nosso refúgio. Foi a ver futebol que, sem o sabermos, ele plantou em mim a semente renovadora (e até um pouco maligna) da auto-determinação. Portugal não começa mal. Perde, como sempre perderia contra a Alemanha. Mas joga bem. Ou, pelo menos, emite bons sinais. Estamos bem.

 

Ponta Delgada, 11 de Junho de 2012

Apanho o avião para São Miguel, a pretexto do lançamento de “Os Sítios Sem Resposta” em Ponta Delgada. E comovo-me. Primeiro, com a presença de dezenas de amigos da literatura, do jornalismo e da política. Depois, com a recepção da Livraria Solmar, de José Carlos e Maria Helena Frias, os últimos livreiros clássicos dos Açores. Depois ainda, com a presença de Berta Cabral, na qualidade de presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada. E, finalmente, com a apresentação de Vamberto Freitas, a cuja generosidade e capacidade de realização devemos a sobrevivência de uma crítica literária açoriana. Acabamos a jantar nas Portas do Mar, com os nossos anfitriões e o Urbano Bettencourt, poeta, professor e amigo. Estou em casa, entre os meus. Um escritor açoriano – nunca quis ser mais do que isso.

 

Terra Chã, 13 de Junho de 2012

Ganhamos à Dinamarca, mas sem brilho. Feito um primeiro balanço, Portugal conseguiu frente à Alemanha um jogo razoável que acabou por correr mal e frente à Dinamarca um jogo medíocre que acabou por correr bem. Hoje, pareceu-me ter identificado ali alguma displicência. Oxalá me engane. Que haja garra. E que, se não houver garra, haja ao menos ética laboral. Tanto talento para tão pouca assertividade é um desperdício.

 

Terra Chã, 15 de Junho de 2012

A caminhada de hoje foi pelas Veredas. É um dos meus trajectos preferidos. Da Fonte Faneca à Matela, da Mata do Estado à Canada da Serra – cada recanto é um reencontro e uma descoberta. Paro no miradouro do Charcão, junto a uma cerrado repleto de gado, e fico ali a olhar o Monte Brasil, a Terra Chã mesmo sob mim, Angra do Heroísmo apenas um pouco mais à frente. À volta, dispersa-se o odor perfeito: uma delicada combinação de erva húmida, leite morno e bosta de vaca (sim, bosta de vaca), que ao mesmo tempo me devolve à infância e me protege do inquietante rumor lisboeta que ainda trago comigo. Coisas inexplicáveis: nos Açores, até a bosta cheira bem. E o mofo. Isto nem os esforços de Tolstói para universalizar a instituição da aldeia natal alguma vez explicaram.

 

Terra Chã, 16 de Junho de 2012

Duas semanas de ausência, para viagens e lançamentos, e já não consigo outra vez orientar-me no meio do novo romance. Suponho que ele próprio não saiba ainda quem é. Aproveito e dou uma volta por alguns dos livros que me ofereceram em São Miguel: “O Rochedo Que Chorou”, de João Pedro Porto; “30 Crónicas II”, de Emanuel Jorge Botelho; “Na Esquina das Ilhas”, de Lélia Nunes; “África”, de Urbano Bettencourt; “O Deus dos Últimos”, de Daniel de Sá; “borderCrossings-leituras transatlânticas”, de Vamberto Freitas. Leio o Daniel de Sá todo de uma vez e confirmo-o: independentemente da geografia sobre que escreva, o Daniel escreve sempre sobre a ilha. Em vez de manipular o espaço, manipula o tempo – e o resultado é que cada história de outra geografia é como que uma história a ser contada “na” ilha a alguém que precisa de evadir-se dela por instantes. Que inveja.

 

Terra Chã, 17 de Junho de 2012

O meu pai foi ao culto. Os protestantes raramente faltam a um culto. Vejo o Portugal-Holanda sozinho. Damos um banho de bola, mas não me divirto nada.

 

Fajãs da Agualva, 18 de Junho de 2012

18 buracos com o Zorra, o meu habitual companheiro de golfe durante as temporadas terceirenses, no Clube de Golfe da Ilha Terceira. As azáleas estão floridas, as hortênsias começam a abrir. Mas quase não acerto na bola. Este jogo exige tempo, disponibilidade. Não os tenho tido. Nem à paciência.

 

Terra Chã, 19 de Junho de 2012

Primeiro dia sem chover em uma semana. Aproveito e lavo três máquinas de roupa. É fantástico como, aqui, o tempo parece esticar. Só hoje, li os jornais no iPad, escrevi dois textos, fui a Angra comprar ferragens, passei no supermercado, parei a ver os meus pais, dei um salto à garagem para uma segunda demão numas prateleiras que ando a pintar, voltei para o computador, naveguei pelos jornais online e pela blogosfera, escrevi mais dois textos e saí para uma caminhada pela Canada da Francesa. Isto para além de actualizar o blog, de comentar no Facebook, de falar ao telefone, de conversar com um vizinho sobre uma possível coligação pós-eleitoral do PSD com o CDS e, espero, de ver um filme e ler mais algumas páginas do Döblin, com que pretendo concluir a minha noite. E para além, claro, de lavar, estender e recolher três máquinas de roupa. Em Lisboa, escrevo o mesmo e nem para mudar o lixo me sobra tempo.

 

Terra Chã, 21 de Junho de 2012

Por esta altura, estou já convencido de que não só Portugal tem hipóteses de chegar ao título continental, como Cristiano Ronaldo caminha a passos largos para o prémio de melhor jogador do Euro 2012. Que grande jogo frente à República Checa, de facto: da selecção toda e do capitão em particular. A carneirada que aproveitou os dois golos que o CR7 falhou contra a Dinamarca para personificar nele o seu ódio ao mundo deve estar em brasa. A tendência para o mimetismo acéfalo é o maior dos inimigos para quem, como eu, pretende insistir nas massas como público-alvo sem abdicar da qualidade.

 

Angra do Heroísmo, 23 de Junho de 2012

Noite de São João. É apenas a noite mais divertida do meu ano. Escrevo antes, naturalmente: depois seria impossível. Durante oito, dez, doze horas andaremos por ali, entre a Rua da Sé e a Praça Velha, entre o Pátio da Alfândega e a Rua Direita, celebrando o São João, delirando com as marchas, dançando – milhares de pessoas pelas ruas, sem uma garrafa partida, sem um bêbedo a vomitar, sem urinóis a céu aberto. Mais delirante manifestação de açorianidade não conheço. São as Sanjoaninas e são minhas. Tenho de conter as lágrimas quando as reencontro.

 

Angra do Heroísmo, 25 de Junho de 2012

Manhã do dia de lançamento de “Os Sítios Sem Resposta” em Angra do Heroísmo. Aqui se encerra o ciclo de apresentações do livro. Ainda haverá mais duas ou três sessões de leitura, nomeadamente numa mercearia de São Bartolomeu dos Regatos e no 90º aniversário do Sport Clube Lusitânia, mas sobretudo pelo contacto humano. É sempre o mais emotivo evento de todos, o de Angra – e este ano, com a apresentação de Artur Cunha de Oliveira, não o será seguramente menos. É em primeiro lugar para esta gente que eu escrevo. E para o meu pai.

Sexta-feira, 15 de Junho de 2012
publicado por JN em 15/6/12

Nenhuma literatura alguma vez fez isto por mim. Nenhuma poesia, nenhuma arte, nenhuma filosofia. Fê-lo o futebol.

De cada vez que me sento num estádio, ou me ponho em frente ao televisor, ou me curvo diante de um transístor, não é aquele jogo que vejo, não é aquele jogo que ouço. Estou em 1989, faltam dez segundos para Fernando Gomes atirar à barra o penálti que impedirá o Sporting de bater o Nápoles de Maradona – e aí vai ele, Gomes, com a bola na mão, caminhando entre o círculo central e a grande área, o olhar pregado na relva como quem sabe que lhe caberá a ele a dúbia honra de glorificar a nossa derrota. Estou mais longe ainda, aliás: estou no Verão de 1987 e Vítor Damas anda aos gritos em cima do risco de golo, a correr de um lado para o outro da baliza e a fazer exigências à descoordenada barreira do Sporting, enquanto Dito, Nunes e Diamantino parecem discutir quem marcará o livre directo cedido instantes antes por Ralph Meade – e já aí está Diamantino, partindo para a bola à falsa fé e ali mesmo começando a desequilibrar, de modo ao mesmo tempo infecto e irremediável, a final da Taça de Portugal, a nossa primeira vaga oportunidade de compensar cinco anos sem títulos de qualquer espécie (isto num tempo em que cinco anos sem títulos de qualquer espécie ainda eram uma tragédia, note-se), e que, não por coincidência, morreria aos pés do Benfica.

Ao meu lado está o meu pai, ainda jovem. Olho-o de soslaio, como que voltando a tentar desvendá-lo. Todos os dias o vejo sair e regressar a casa, com a sua impecável farda azul – e é quase tudo. Não sei ainda o quanto o admirarei no futuro. Não sei ainda o papel que terá no meu olhar sobre o mundo a sua honestidade férrea. Não faço ideia sequer de que está já plantando em mim a semente renovadora (e até um pouco maligna) da auto-determinação, incutindo-me a urgência de suplantar o destino que me parece guardado. Ou talvez comece já a intuir alguma coisa, não sei. Estamos na cozinha fria dos Açores. Lá fora, o silêncio. Não passam automóveis na rua em dias de futebol – os próprios melros parecem suspender o seu desenfreado canto quando joga o Sporting. Há como que um estertor de ansiedade por dentro do meu pai. Ondas peristálticas percorrem-lhe o pescoço, o peito, o estômago – e, no entanto, nem um esgar, nem um salto incontido, nem um gesto de impaciência. Até que se confirma que perdemos. Perdemos sempre, na verdade. Sempre que é importante. E então ele ergue-se silencioso, tossica a sua tosse tímida e nervosa, como que dando por concluída a tarefa mais irrelevante e aborrecida do dia – e desaparece lá para trás, para o quintal, onde passará a noite com um maço e um escopro, abrindo buracos sem razão aparente, e que no fim-de-semana seguinte se ocupará de tornar a tapar, assim o Sporting volte a perder.

 

Ao significado de tudo isto, demoro ainda muito tempo a percebê-lo. Nos quinze anos seguintes haveremos de viver a dois mil quilómetros um do outro – e mesmo quando, a dada altura, uma parte do meu ano começar a ser vivida não a dois mil quilómetros dele, mas a cem metros apenas, a distância entre nós demorar-se-á a mesma. E, contudo, continuaremos a ter o futebol. Teremos sempre o futebol. Mesmo que não encontremos mais nada sobre o que falar um com o outro, haverá o Sporting. Às vezes ainda tentamos fugir-lhe. Fugir-lhe, não: transcendê-lo. Não há razão para fugirmos do Sporting, afinal: o Sporting sempre nos partiu o coração, mas o que lhe devemos é já muito mais importante do que a simples alegria. Tentamos diversificar a conversa, digamos. Falamos do trabalho. Dos afazeres. Da crise. Da meteorologia – e, enfim, outra vez do Sporting (ou da selecção nacional, durante as grandes competições internacionais), agora menos frustrados com o fracasso dos outros assuntos do que gratos por aquele maravilhoso lugar a que poderemos voltar sempre. E, a certa altura, já nem é sequer uma possibilidade de comunicação, aquele jogo: é uma declaração de amor. Como, se calhar, se limitou sempre a ser: apenas a única maneira que encontrámos os dois de dizer um ao outro que nos amávamos, sem termos de efectivamente utilizar essas palavras.

 

O pai. Julgo que não me engano se disser que a idade adulta começa no momento em que um homem é pela primeira vez capaz de admirar o seu pai. O meu pai. Tenho a certeza de que, por muito que me tivesse esforçado, e ainda que o houvesse mesmo feito, eu jamais teria conseguido ser durante cinco minutos metade daquilo que ele foi ao longo de toda a vida, sem uma hesitação, sem uma ressalva, sem outra intenção que não apenas sê-lo. E que ainda é, aliás. Muitos escritores fizeram questão, algures ao longo da vida, de homenagear o pai. Fizeram-no muitas vezes a título póstumo, outras tantas quando ele se encontrava no leito de morte. Fizeram-no como forma de estender o braço, de recuperar o tempo perdido, de vencer a distância. Toda a literatura é isso, provavelmente: o impulso de vencer a distância, a irredutibilidade desse impulso. A mim, o momento de fazê-lo sobreveio-me talvez mais cedo do que a outros (embora mais tarde do que a muitos também). Chegou quase como uma epifania, sem se anunciar, quando eu sabia já que queria falar por uma última vez de futebol, mas ainda não porquê. E chegou avassalador: tomou o texto nas mãos e foi por aí fora, instrumentalizando-nos a todos, as pessoas, os lugares, os objectos, a rotinas, os cheiros – todos reduzidos a não mais do que ferramentas, como se a nós próprios não nos restasse mais do que abrir buracos sem razão aparente, talvez apenas para que pudéssemos fechá-los mais tarde, ainda que de novo por nenhum motivo que não o de manusear buracos.

 

Ao livro que resulta desse exercício decidi chamar-lhe “Os Sítios Sem Resposta”. A vida, se alguma vez puder ser reduzida a um sentido só, não passará provavelmente disso: de uma deriva pelos espaços que nada têm para dizer-nos de volta, da procura de um lugar a que possamos chamar nosso, do desorientado mas furioso caminho de regresso a casa. Mas, sobretudo, foi ao lado do meu pai que eu li pela primeira vez esse verso, esse maravilhoso poema de Tolentino de Mendonça que eu nem imaginava ainda roubar. “Regressamos a uma terra misteriosa/ trazemos uma ferida/ e o corpo ferido/ imprevistamente nos volta/ para margens mais remotas// (…) para além do jogo das nossas defesas/ qualquer coisa interior/ a intensa solidão das tempestades/ os campos alagados,/os sítios sem resposta// o teu silêncio, ó Deus, altera por completo os espaços.” Era sábado, eu estava à beira da mais importante e dramática decisão da minha vida (um momento puramente revolucionário, talvez, mas isso agora é o menos) e tinha por acaso o meu pai a meu lado, em Lisboa. Por acaso, não. De maneira nenhuma por acaso: alguma coisa nos dissera que devíamos estar juntos naquele dia, naquele tempo – alguma coisa dentro de nós nos encaminhara para ali. Passámos a tarde juntos, em silêncio, deambulando pela casa. Foi aí que eu o li. “Silêncio.” E então, sim, entrámos no meu Smart. Abrimos o tejadilho. Pusemos um disco de funk – e dirigimo-nos para Norte.

 

O Sporting, naturalmente, perdeu. Se ganhasse, conquistaria também o campeonato, pondo fim a novos quatro anos sem títulos de importância alguma. Durante mais de uma hora, o Sporting em cima deles. Ataques pela esquerda, ataques pela direita, determinação defensiva, resiliência. O Sporting comovente, como tantas vezes é o Sporting, sobretudo se a caminho de mais uma bela derrota. Pelo menos, eu recordo-o assim: abnegado e comovente. Até que, aos oitenta e quatro minutos, um pontapé longo do guarda-redes adversário. Para além do jogo das nossas defesas, qualquer coisa interior. O corpo ferido. Dois toques, uma triangulação – e nós reconhecendo já aquilo, aquele ritmo, aquela melodia. O silêncio. A intensa solidão das tempestades, os campos alagados, os sítios sem resposta. Um remate – e, pronto: golo do FC Porto. O teu silêncio, ó Deus – o teu silêncio altera por completo os espaços. Golo do FC Porto e, de novo, o fracasso. Mas, de novo também, não apenas meu. Não apenas dele. Nosso. O estádio atónito, insultos trocando-se entre adversários, murros digladiando-se entre amigos. E nós ali. Um ao lado do outro. No silêncio de sempre – voltando à cozinha fria dos Açores, ouvindo outra vez suspender-se o canto dos melros e, enfim, dispersando, ele para o escopro com que abriria buracos pelo quintal, eu ao quarto da infância, onde poria uma almofada sobre a cabeça, para reprimir as lágrimas, e tentaria dormir até ao fim-de-semana seguinte.


Nenhuma literatura alguma vez fez isto por mim. Nenhuma poesia, nenhuma arte, nenhuma filosofia. Fê-lo o futebol. E dedicar-lhe um romance, bem vistas as coisas, é pequeníssima penitência para tão grande milagre.

Qi, 9 de Junho de 2012.

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Sábado, 26 de Maio de 2012
publicado por JN em 26/5/12

 

A minha selecção para a dupla-página O QUE ANDO A VER, A OUVIR E A LER, do Qi, suplemento de sábado do Diário de Notícias (26 de Maio de 2021).

 

LER

 

João de Melo

"Gente Feliz Com Lágrimas"

D. Quixote

€ 18,17

Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, é um extraordinário romance, mas não deixa de ser uma espécie de romance do século XIX escrito no século XX. Gente Feliz Com Lágrimas, sim, é todo o século XX açoriano condensado num tomo só. É o retrato perfeito de um lugar de gente em fuga que, no entanto, não chegará a sair nunca do mesmo sítio. Ganhou prémios, teve o seu buzz mediático e vendeu milhares de exemplares suplementares a pássaros feridos apenas por causa do título iluminado. Hoje, quase 25 anos depois, torna-se a olhar para ele e percebe-se que tinha ainda mais camadas de leitura do que aquelas que identificámos de início. Julgo que não me engano se disser que forma com Mau Tempo no Canal e Raiz Comovida (este de Cristóvão de Aguiar) uma espécie de Santíssima Trindade do romance açoriano. Mas é, para o meu percurso intelectual, criativo e até pessoal, o mais importante dos três.

 

José Saramago

"O Ano da Morte de Ricardo Reis"

Caminho

€ 16,66

Toda a gente tem direito a um lema de adolescência, daqueles que se inscrevem na capa dos cadernos do liceu e se citam até à náusea nas primeiras discussões políticas (ou, vá lá, protopolíticas, incluindo uma significativa subalternidade da razão em relação à retórica). "Sê todo em cada coisa. Põe quanto és/ No mínimo que fazes", dizia o meu – e era, naturalmente, de Ricardo Reis. Ainda hoje é o meu heterónimo de estimação, sobretudo pelo estoicismo (embora talvez um pouco também pelo cinismo). O romance sobre o seu regresso do Brasil a Lisboa, como se não pudesse deixar de cumprir a parte que lhe cabia no plano da sua própria morte, é talvez o maior de todos os grandes momentos de Saramago, talvez o nosso mais sublime narrador da segunda metade do século XX. "Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo", dizia Reis. E não é raro ocorrer-me que está de facto quase tudo nessas aparentemente tão simples palavras.

 

Herberto Helder

"Ou o Poema Contínuo"

Assírio & Alvim

€ 13,86

"Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra/ e seu arbusto de sangue. Com ela/ encantarei a noite./ Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher./ Seus ombros beijarei, a pedra pequena/ do sorriso de um momento./ Mulher quase incriada, mas com a gravidade/ de dois seios, com o peso lúbrico e triste/ da boca. Seus ombros beijarei.// Cantar? Longamente cantar,/ Uma mulher com quem beber e morrer./ Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave/ o atravessar trespassada por um grito marítimo/ e o pão for invadido pelas ondas,/ seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes/ ele – imagem inacessível e casta de um certo pensamento/ de alegria e de impudor./ Seu corpo arderá para mim/ sobre um lençol mordido por flores com água." Não sei se é, como se diz, o grande poeta português dos últimos 50 anos. É o poeta a que mais vezes regresso. Aprendi a lê-lo com o Torcato Sepúlveda, de quem tenho tantas saudades, e mantenho este "Ou o Poema Contínuo" em cima da mesa de cabeceira, quase como um guia de auto-ajuda, há uns sete ou oito anos.

 

John Steinbeck

"As Vinhas da Ira"

Livros do Brasil

€ 20

Encantam-me os grandes contadores, os cronistas de um tempo todo – e os mais cabalmente fundadores, para mim (e não apenas enquanto autor, mas se calhar principalmente enquanto leitor), estará sempre Steinbeck. Li-lhe, antes de todos os outros, o road book Viagens Com o Charley, um descomprometido e  porém brilhante retrato da América do pós-guerra, cheia de dinheiro, cheia de liberdade, sem saber muito bem o que fazer com qualquer um deles e pondo-se invariavelmente em movimento (Johanthan Franzen leu-o com muita atenção, de certeza absoluta). Mas tenho regressado muitas vezes a "As Vinhas da Ira", que descreve como nenhum outro a brutalidade a que o homem pode descer quando deixa de ter o que quer que seja a perder. Em tempos de crise económica, como aqueles que vivemos, pode mesmo ser especialmente profilático lê-lo e logo pormo-nos em frente ao espelho, à procura dos primeiros sinais do monstro.

 

Pearl S. Buck

"A Patriota"

Livros do Brasil

€ 13,63

Pearl S. Buck não é Jane Austen, mas é provavelmente a grande escritora do século XX que mais bem combinou as preocupações sociais e políticas do seu tempo com a delicadeza de uma escrita puramente feminina. Contemplativa e curiosa, fez das derivas pelo extremo-oriente, em parte na companhia do pai (um missionário norte-americano durante muitos anos sediado na China), o seu principal método de escrita, deixando-nos páginas tão belas como didácticas sobre as sociedades, as culturas e os dilemas individuais e colectivos de países como a China, o Japão ou a Coreia (e que, na verdade, nunca deixaram de ser uma exegese possível para os nossos próprios). "A Patriota", em particular, tem hoje enorme actualidade, porque nos conta como o filho de um poderoso banqueiro se deixou fascinar pelo romantismo da revolução e aderiu ao Partido Comunista, vindo mais tarde a perceber que, afinal, o líder da revolução se vendera a uma série de bancos iguais ao do seu pai. Afinal, estava ou não estava já tudo escrito sobre a nossa nova querida superpotência?

 

 

OUVIR

 

John Cale

"Fragments Of a Rainy Season"

Rykodisc

€ 12,85

Se um dia me perguntassem a qual, de todos os grandes concertos da história, eu mais gostava de ter assistido, eu escolheria provavelmente o de John Cale no Palais des Beaux Arts de Bruxelas, em 1992, onde se gravou grande parte de Fragments Of a Rainy Season. Toda a gente tem direito a um disco preferido, e o meu é esse "fragmentos de uma estação chuvosa", uma ode que, sem o saber, John Cale escreveu aos Açores. Ouvi-o pela primeira vez ainda nos anos 90, requisitado de uma biblioteca, e pirateei-o de imediato. Aqui há dois ou três anos, tive um rebate de consciência: já há algum tempo que dispunha de dinheiro suficiente para comprar discos e, portanto, tinha de pagar a minha dívida para com John Cale. Comprei-o na Amazon, depois de muito procurar, por uns escandalosos 48 dólares, mais portes. No total, paguei por ele 54 euros, salvo erro. E, mesmo assim, ainda acho que continuo em dívida.

 

Carlos Medeiros

"O Cantar Na M'Incomoda"

DRC

€ 13,00

Deixem-me ser definitivo nisto: a música açoriana tem um "melhor disco de todos os tempos" – e esse disco é O Cantar Na M'Incomoda, de Carlos Medeiros. Foram vinte anos de pesquisas, à procura de temas do cancioneiro popular caídos no esquecimento – e, no fim, são nove canções (nove cantigas!) reinterpretadas segundo muitos dos conceitos do jazz, com sincopações, dissonâncias e desconcertos em geral, para mim, rigorosamente brilhantes. De Caracol, narrativa sobre um homem que persegue em desespero um caracol que anda a comer-lhe as couves, a Marujo, a história de um pobre homem que passou toda a vida embarcado e sem dinheiro, não há um tema mais fraco ou menos bem interpretado do que o outro. Uns são surrealistas, outros cantados a capella, outros ainda íntimos dos instrumentos regionais, viola de quinze cordas à cabeça. Podia ouvi-lo todos os dias e, ainda assim, continuar a descobrir-lhe significados.

 

Dixie Gang

"Pimenta da Terra"

Edição de autor

€ 13,90

Dizia Chaplin sobre a vida que, se vista de perto é uma tragédia, vista de longe é uma comédia. É de longe que os Dixie Gang a vêem. Por isso se riem dela – e por isso a sua música se ri dela com eles. E, porém, há uma profunda seriedade nesse riso. O humor não é um estado de espírito, é uma visão do mundo, ajuntaria Wittgenstein.  E o que esta hot music nos diz é precisamente isso: que há uma visão do mundo que escorre pelas paredes, em delírio, enquanto contempla o declínio de todas as coisas. Sete anos depois de ter-se deixado invadir pelas águas, tenho a certeza de que também New Orleans, o berço desta música frenética, gostará de recordá-lo. Terá dito como Santos Barros disse um dia de Angra do Heroísmo, a última das nossas cidades mártires: "Não perecerás, ó destruída./ Havemos de reerguer-te, casa a casa!" Mas di-lo-á agora a rir. Talvez o tenha mesmo dito sempre.

 

 

VER

 

Clint Eastwood

"Imperdoável"

Lusomundo/Warner

€ 14,90

Clint Eastwood tem sido apelidado de "o último clássico". Não sei se merece o epíteto ou mesmo se o quer, sobretudo tendo em conta o recente Hereafter (e que as vagas virtudes de J. Edgar não conseguiram compensar). Imperdoável escapa a tudo isso. Não tem a sofisticação de Mystic River ou Million Dollar Baby, provavelmente as obras maiores do mestre, mas é talvez a peça mais passional e indomável de toda a sua filmografia. Para além de tudo, trata-se de um filme de homens. Um filme profundamente masculino – diz-se que a cultura popular já não deve ser masculina, porque no fundo são as mulheres que lêem livros e ouvem discos e vêem filmes – e ao mesmo tempo um filme profundamente humano, pelo qual desfilam a amizade e a solidariedade e a inevitabilidade e todos os outros grandes rostos do processo de envelhecimento (e, mutatis mutandis, da chegada da sabedoria). Durões com coração – já vão faltando no cinema, neste tempo de dragões, hobbits, super-heróis e extra-terrestres.

 

Granada Television

"As Aventuras de Sherlock Holmes"

Prisvideo

€ 16,90

Esta primeira temporada ainda tem como Watson o actor David Burke, em vez de Edward Hardwicke, que me parece ter oferecido ao papel a dose de bonomia de que ele precisava. Mas o que me importa é isto: de todas as grandes personagens da história da literatura, talvez nenhuma me tenha divertido tanto como Sherlock Holmes. E foi a partir da velha série da Granada Television, com o maravilhoso Jeremy Brett como protagonista, que eu a descobri. Agora que volto a vê-la, percebo que, para além de as personagens secundárias serem amiúde mal interpretadas, as dramatizações eram algo irregulares e a realização bastas vezes destrambelhada (o que aliás também se explica pelas constantes mudanças na ficha técnica). Mas a atmosfera era única, aterrorizadora, mágica. E, ainda hoje, basta-me ouvir os primeiros acordes do genérico inicial para regressar à infância.

 

Robert Redford

"A Lenda de Bagger Vance"

DVD independente

€ 15,50

O golfe tornou-se no meu escape da idade adulta: na minha evasão, no meu divertimento e até na minha deriva filosófica semanal. É o jogo tecnicamente mais difícil que conheço e é o jogo psicologicamente mais exigente que alguém já conseguiu mostrar-me. Tudo isso é retratado em "A Lenda de Bagger Vance" como nunca foi retratado noutro filme. Robert Redford tem às vezes uma inclinaçãozinha new age que me irrita, mas neste caso é a própria transformação do caddie numa figura onírica, quase numa epifania, que coloca as peças todas no lugar certo. Para além do mais, Redford é ao mesmo tempo um mestre da estética e um apaixonado do melhor, mais sacana e mais belo jogo do mundo. E, de vez em quando, eu tenho de voltar a "A Lenda de Bagger Vance" para me recordar por que continua ele a ser o melhor e o mais belo, mesmo partindo-me tão amiúde o coração.

Joel Neto


Joel Neto, escritor, nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive na freguesia rural da Terra Chã, na mesma ilha Terceira, a que regressou em 2012 depois de vinte anos em Lisboa. Jornalista de origem, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à ficção. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Todos Nascemos Benfiquistas” (crónicas, 2007), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, publicado e/ou representado em antologias em vários países. (saber mais)
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Os Sítios Sem Resposta
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"O Citroën Que Escrevia
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(Mas Depois Alguns Crescem)",
CRÓNICAS,
Esfera dos Livros,
2007
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"José Mourinho, O Vencedor",
BIOGRAFIA,
Publicações Dom Quixote,
2004
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"Al-Jazeera, Meu Amor",
CRÓNICAS,
Editorial Prefácio
2003
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