Domingo, 1 de Maio de 2011
publicado por JN em 1/5/11

 

Temas incluídos na edição de 25-29/4/2011 do programa "A Playlist de...", da TSF.

 

“No Teu Poema”, de Carlos do Carmo

 

Perguntem-me um dia exactamente qual é a melhor canção da música popular portuguesa, a canção mais acabada, em que a melodia e a letra mais cabalmente se fundam numa coisa só, e eu direi provavelmente “No Teu Poema”. Só para ser absoluto, isto é. O mérito é de José Luís Tinoco, compositor e letrista, mas também do próprio Carlos do Carmo. Não gosto de vê-lo ao vivo, pois parte sempre da presunção (errada) de que tem imensas coisas a conversar com o público. Mas, como intérprete, é inigualável, ao mesmo tempo intuitivo e deliberado, não deixando um só pormenor ao acaso. Comovo-me sempre quando alguém faz da obra um tributo ao trabalho e ao valor do trabalho.

 

 

“Darling I Need You”, de John Cale

 

Se um dia me perguntassem a qual, de todos os grandes concertos da história, eu mais gostava de ter assistido, eu escolheria provavelmente o de John Cale no Palais des Beaux Arts de Bruxelas, em 1992, onde se gravou grande parte de “Fragments Of a Rainy Season”. Toda a gente tem direito a um disco preferido – e o meu é esse “fragmentos de uma estação chuvosa”, uma ode que, sem o saber, John Cale escreveu aos Açores. A canção é escolhida quase ao acaso, porque qualquer uma servia. Para dizer a verdade, não resisto, aqui, à forma como John Cale canta a palavra “rattlesnakes”.

 

 

“Caracol”, de Carlos Medeiros

 

Deixem-me ser definitivo nisto: a música açoriana tem um “melhor disco de todos os tempos” – e esse disco é “O Cantar Na M’Incomoda”, de Carlos Medeiros. São vinte anos de pesquisas, à procura de temas do cancioneiro popular caídos no esquecimento – e, no fim, são nove canções (nove cantigas!) reinterpretadas segundo muitos dos conceitos do jazz, com sincopizações, desacertos e desconcertos, para mim, rigorosamente brilhantes. Este “Caracol”, narrativa sobre um homem que persegue um caracol que anda a comer-lhe as couves, é precisamente o tema que abre o disco. Preparem-se. *Nota: a versão aqui reproduzida é a da Brigada Victor Jara, infelizmente a única disponível online em formato vídeo.

 

 

“Let It Be Me”, de Ray LaMontagne

 

Chamam-lhe “o grande herdeiro de Jeff Buckley”, e isso não é desprestígio nem para um nem para outro. Jeff Buckley, desaparecido tão cedo, merecia um herdeiro – e, provavelmente, nenhuma alternativa seria melhor do que Ray LaMontagne. É a mais impressionante voz masculina que apareceu nos últimos anos – e este “Let It Be Me” mostra-o em todo o seu esplendor. Uma delícia.

 

 

“Regasu (Seiva)”, de Mário Rui (original de Orlando Pantera)

 

Se alguma coisa conseguiu empobrecer o universo da música caboverdiana, foi provavelmente o desaparecimento prematuro de Orlando Pantera, há uns anos, a escassos três dias de viajar para Lisboa a fim de gravar o seu primeiro disco. Felizmente, vários músicos foram recuperar as suas composições. Desta “Regasu (Seiva)”, conheço pelo menos três versões diferentes: a de Mayra Andrade, que é demasiado moderninha para ter chama; a de Leonel Ferreira, que já ouvi ao vivo mas não sei se está gravada; e esta, de Mário Rui, com arranjos datadíssimos, transpirando anos 70 por todo o lado e, no entanto, absolutamente mágica. *Nota: a versão aqui reproduzida é a de Mayra Andrade, infelizmente a única disponível online em formato vídeo.

 

 

“Prelúdio da Suite para Violoncelo Nº 1 em Sol Maior”, de Bach (versão Rostropovich)

 

Na pré-história da minha relação com a música, está a música erudita, que aprendi a ouvir nas salas e nos corredores do Conservatório Regional de Angra do Heroísmo – e a influência foi tal que, anos depois, ainda era música erudita o que eu ouvia aos gritos no walkman, aos sábados e aos domingos, quando fazia todo o percurso do autocarro número 50, a caminho dos jogos do Sporting. Escolhi uma peça especialmente pop, de resto várias vezes usada pelo cinema: o prelúdio da Suite para Violoncelo Nº 1 em Sol Maior, de Bach, na versão Rostropovich. Nos autocarros, aos 18 anos, eu preferia, confesso, Bartók, Rachmaninoff, Rimsky-Korsakov – tudo aos gritos também. Coisas da adolescência.

 

 

“The Libertine”, de Patrick Wolf

 

Há algo em Patrick Wolf que é génio e outro tanto que é surpresa. Ouvir a sua pop barroca é quase sempre como enfiar a boca num saco de plástico e respirar lá para dentro até não conseguir respirar mais. Desesperado, sufocante e, aliás, altamente dançável – é isso Patrick Wolf e é isso este “The Libertine”. Escrito aos 21 anos, imagine-se.

 

 

“Tajabone”, de Ismael Lo

 

Esta playlist também é uma espécie de autobiografia – e “Tajabone”, do senegalês Ismael Lo, representa uma espécie de marco no fim da minha adolescência (ou pós-adolescência, vá). Em 1998, andei um mês e meio por África, com 23 anos e os bolsos cheios de dinheiro, a cobrir uma competição desportiva sobre a qual apenas tinha de escrever umas vinte linhas por dia. Andei de mota, fui à caça, participei num arraial de pancada, apanhei uma disenteria – e em quase todos esses momentos esteve Ismael Lo. Pedro Almodôvar recuperou a canção mais tarde, para a banda sonora de um dos seus filmes. Fez bem. “Tajabone”, para mim, é a África toda.

 

 

“Dreams”, de Luís Bettencourt

 

Conhecemo-lo apenas como “o irmão mais velho de Nuno Bettencourt”, quando muito como “o irmão mais velho que Nuno Bettencourt diz ter-lhe ensinado tudo”. A verdade é que Luís Bettencourt deu, nos anos 80, um importante contributo ao desenvolvimento da música açoriana, mesmo se cantada às vezes em inglês. Este “Dreams” passava quase todos os dias na televisão, por volta das cinco para as oito da noite, a queimar tempo antes do Telejornal. Ouvi-lo é como regressar à mesa de jantar da infância. Não pode haver nada mais mágico do que isso.

 

 

“My Inspiration”, pelos DixieGang

 

Gosto tanto dos DixieGang que, quando me casei, as primeiras coisas que escolhi foram o lugar e a banda da festa: um monte alentejano com um terreiro dançante e os DixieGang ao vivo. Há alguma coisa no dixieland, o mais festivo dos estilos do old jazz, que me enche de alegria. O mais provável é que seja o facto de a música jorrar pelas paredes abaixo, de forma torrencial. Mas também pode ser, neste caso em particular, o clarinete de Paulo Gaspar. Eis, pois, uma versão absolutamente delirante de um standard: “My Inspiration”. *Nota: a versão aqui reproduzida é a da Dutch Swing College Band, infelizmente a única disponível online em formato vídeo.

 

           

“Teardrop”, de José González (original dos Massive Attack)

 

Há-de ficar bem expresso, ao longo desta playlist, o meu apreço por versões. Os autores apaixonam-se pelas coisas mais tontas nas suas obras, compostas tantas vezes com sangue, suor e lágrimas – e, às vezes, é preciso vir um segundo intérprete para depurá-la naquilo que ela tem de melhor. Este “Teadrop”, dos Massive Attack mas cantado aqui por José González (um sueco, curiosamente), é um glorioso exemplo disso. Desespero puro.

 

 

“Sou Do Fado, Sou Fadista”, de Ana Moura

 

Penso que, nos últimos anos, toda a gente terá escolhido a “sua” fadista. Eu comecei por Mafalda Arnauth, mas acabei por aborrecer-me com a pose de diva (e, aliás, com as letras que ela própria escreve, banalíssimas). Converti-me a Ana Moura – e o disco “Guarda-Me a Vida Na Mão” tem bastante responsabilidade nisso. Este é um dos seus melhores temas, “Sou do Fado, Sou Fadista”, que ainda por cima tem, no refrão, um momento de enorme desconforto, em que parece que vamos passar para sétima mas nunca passamos, criando uma espécie de “tempo fraco” que simplesmente nos tira o tapete. Brilhante.

 

 

“Frank’s Wild Years”, de Tom Waits

 

De Tom Waits, eu podia trazer aqui uns 30 temas diferentes, que cada um deles representaria algum momento importante para mim. Mas eu cito tanta vez “Frank’s Wild Years”, nas minhas crónicas de jornal, que era quase uma desonestidade não trazê-la aqui. Há um homem que se zanga com a vida e decide queimar tudo. O meu momento preferido é quando ele estaciona do outro lado da rua, a rir e a ver arder. É algo que há muitos anos venho tentando aprender: a capacidade de, perante um incêndio definitivamente descontrolado (e tenha sido esse incêndio sido ateado por mim ou por outrem), chegar-me para trás e simplesmente rir.

 

 

“Sparring Partner”, de Paolo Conte

 

Paolo Conte acompanha-me há muitos anos – e, tal como de Tom Waits, eu podia escolher uma série de canções diferentes para trazer aqui. Mas há algo neste “Sparring Partner” que eu não sei bem definir: talvez uma sensualidade antiga, talvez um jogo de roleta russa. Usei-o como genérico de um dos programas que tive na RTP-Açores e não podia, até por gratidão, deixá-lo de fora desta playlist.

 

“If You Go Away”, de Emiliana Torrini (original de Jacques Brel)

 

Há canções que marcam fases da nossa vida – e “If You Go Away”, a versão de Emiliana Torrini de “Ne Me Quittes Pas”, marcou, passe o confessionalismo, uma fase importantíssima na minha: uma fase de mudança, de desespero e de esperança. Tudo o que importa neste mundo é a memória – e, sabendo-a capaz de recuperar a memória, Jacques Brel seria seguramente o primeiro a render-se ao facto de a sua música ter sido vertida para o inglês.

 

 

“Por Una Cabeza”, de Carlos Gardel

 

Abrissem um dia uma votação para a melhor música do mundo, e eu consideraria seriamente votar no tango. Nenhuma música é tão recorrentemente uma narrativa (e eu sou um homem da narrativa). Escolhi o clássico dos clássicos, mas pela voz de quem de direito: “Por Uma Cabeza”, cantado por Carlos Gardel. A melhor do que isto já não chegamos, de certeza absoluta.

 

 

“Espalhem a Notícia”, dos Clã (original de Sérgio Godinho)

 

Eu não sou uma autoridade em alegrias da paternidade, mas imagino que sejam assim, como este “Espalhem a Notícia”. Sérgio Godinho é um dos grandes criadores da música pop portuguesa e Manuela Azevedo uma das suas grandes intérpretes. Acontece que Sérgio Godinho não tem voz e que Manuela Azevedo não tem canções, pelo menos feitas pelos Clã propriamente ditos. Juntar os dois, com os Clã por trás, dá nisto. Deus os abençoe a todos.

 

 

“Come Pick Me Up”, de Ryan Adams

 

Há alguma coisa em “Come Pick Me Up”, de Ryan Adams, que rescende ao mesmo tempo aos Estados Unidos profundos e ao mundo inteiro. A utilização da harmónica talvez suporte o regionalismo, mas são provavelmente versos como “screw all my friends/ they’re all full of shit” que suportam a universalidade. Ryan Adams nasceu exactamente no mesmo ano que eu: 1974. E, sejam ou não esses dois versos marginais, parecem-me sempre o retrato de uma geração: de uma geração que perdeu o apreço pelo valor da amizade. Eu lamento-me com ele.

 

 

“What a Difference a Day Makes”, de Dinah Washington

 

Esta playlist está especialmente sombria, o que se calhar também é denunciador do meu carácter. Segue, pois, um tema solar, para desenjoar um pouco: “What a Difference a Day Makes”, de Dinah Washington. Para a Catarina, a quem também dedico a “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa”. Faz de conta que é uma espécie de disco pedido.

 

 

“Tunnel Of Love“, dos Dire Straits

 

Podem chamar-lhe guilty pleasure, se quiserem. Apesar do muito que os Dire Straits fizeram de mau e de fácil, “Tunnel Of Love” permanece a canção perfeita, com a estrutura perfeita, a orquestração perfeita e o ritmo perfeito também. Não está in gostar dos Dire Straits, mas a verdade é que se contém neles quase tudo o que de bom e feliz e luminoso houve na minha adolescência. Segue-se uma viagem no tempo, portanto.

 

 

“Foi Por Ela”, de Fausto

 

Não sei se é uma figura de estilo, se é apenas estilo. A verdade é que as “discordâncias temporais” de “Foi Por Ela” são um dos mais belos e inventivos recursos estilísticos da canção portuguesa. De Fausto Bordalo Dias, há sempre dezenas de canções que podem escolher-se. Mas: “Foi por ela que eu já danço a valsa em pontas” – só este verso justificava tudo. Eis, portanto, um grande tema de um génio absoluto.

 

 

“Limelight”, de Gerry Mulligan

 

Foi compagnon de route de Chet Baker, mas depois ganhou asas. Gerry Mulligan escolheu o saxofone barítono, o mais equilibrado de todos os elementos da extensíssima família instrumental lançada por Adolphe Sax, e tornou-se o seu supremo intérprete. Os seus discos a solo trazem sempre arranjos belíssimos – e a nenhum deles alguma vez escapa o lado lúdico da música. Este “Limelight” conta-nos uma história, e essa história é divertida. Um grande tema.

 

 

“Space Oddity”, de David Bowie

 

A música como narrativa. Major Tom aparece aqui e reaparece numa série de canções posteriores – inclusive em “Ashes To Ashes”, onde se explica que se trata, na verdade, de um junkie. Talvez seja a escolha mais óbvia desta playlist, mas eu não podia deixar David Bowie de fora. Para além de tudo, ele, sim, é the coolest mother-fucker in town.

 

 

“Fado Sete-Estrelo”, por Mariana Abrunheiro (original de José Medeiros)

 

Mariana Abrunheiro, que é originalmente uma actriz, destacou-se como vocalista dos Madredeus nos tempos da Banda Cósmica, mas antes disso já cantava com José Medeiros, cineasta e compositor e músico que, na verdade, foi a melhor coisa que alguma vez aconteceu à cultura pop dos Açores. Este “Fado Sete-Estrelo” fez parte da banda sonora de uma das séries televisivas de Zeca. Hoje, quando ele sobe ao palco, um dos momentos mais esperados da noite é sempre esse em se lhe junta Mariana para o cantar. Ei-la.

Participação especial. TSF, de 25 a 29 de Abril de 2011

Sábado, 23 de Abril de 2011
publicado por JN em 23/4/11

Acaba de lançar o livro “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa”. O que se pode encontrar nessa publicação?

Eu podia dizer que se trata da selecção das minhas melhores crónicas de jornal, mas não é bem assim. É uma selecção das crónicas de que eu mais gosto entre aquelas que, em minha opinião, mais bem representam essa personagem com a qual, curiosamente, partilho o nome: Joel Neto. Foram publicadas fundamentalmente (embora não só) no Diário de Notícias e no Jornal de Notícias. Algumas incidem sobre matérias de actualidade, outras sobre as manias mais arreliadoras dos portugueses, outras ainda sobre personagens (e mesmo situações) de ficção, aproximando-se do conto. Nesta última secção, muito mais íntima, os Açores (e a Terceira em particular) estão por todo o lado. Em todo o caso, julgo haver uma certa coerência entre elas. Ou, vá lá (não gosto muito da palavra coerência): uma certa unidade. Acho alguma piada a esse Joel Neto, embora não me agradasse nada ser como ele. É demasiado resmungão, demasiado conservador, demasiado desconfiado. Apenas lhe invejo o sentido de humor.

Este é o terceiro livro de crónicas que publica. Essa situação resulta de se dedicar sobretudo à escrita de crónicas para a imprensa?

Sim. Eu faço outras coisas, atenção: mantenho alguma actividade como comentador de televisão, alguma actividade como coordenador de conteúdos e até alguma actividade como ficcionista (embora agora com produção um tanto espúria). Mas, de facto, são as crónicas de jornal que pagam as contas cá em casa. E, nesse sentido, tenho de reconhecer que sou um privilegiado. Vivo quase em exclusivo da escrita criativa e não vivo propriamente mal. Se reparar, muitos dos grandes escritores da história nasceram ricos ou viveram da caridade grande parte da vida (ou mesmo a vida inteira). Eu não nasci rico e, por outro lado, ainda não tive de viver da caridade. As crónicas têm-me permitido escrever e, ao mesmo tempo, ter uma casa de férias e fazer umas viagens de vez em quando, receber os amigos cá em casa e jogar golfe duas ou três vezes por semana. É verdade que, a espaços, articular isso tudo – os trabalhos e os compromissos pessoais e o exercício do lazer –, torna-se um pouco esquizofrénico. Mas antes isso do que ter de abdicar das coisas de que gosto. Não há literatura que valha os meus joguinhos de golfe com a malta.

Depois de ter lançado “O Terceiro Servo” não surgiu a possibilidade de editar outro romance?

De editar, surgiu. Tenho editor – e, aliás, é frequente receber telefonemas ou emails de outros editores ainda, perguntando-me como vai a escrita de ficção e disponibilizando-se para publicá-la. Assim vai o mercado editorial português: tão desesperado por livros que até por um tipo como eu é capaz de se pôr a suspirar. O problema é que não surgiu, verdadeiramente, a possibilidade de escrevê-lo. Quer dizer: eu já podia ter publicado várias coisas que escrevi, algumas delas carentes apenas de uma remate, de uma revisão, de um embrulho bonitinho. Mas não fiquei satisfeito com nenhuma delas. Não é que eu esteja propriamente à procura do “novo romance português”, mas acho que já não faz sentido publicar ficção se o livro em causa não for claramente melhor do que o anterior. Já não estou para publicar qualquer coisa, percebe? Com os livros mais industriais, decorrentes sobretudo do trabalho jornalístico, não tenho esse prurido: são novas dimensões de um trabalho puramente profissional. Já com as crónicas, tenho igualmente muito cuidado. Este “Banda Sonora Sobre Um Regresso a Casa” é o meu melhor livro até ao momento. Se não fosse, eu não o teria publicado.

Como se pode enquadrar com escritor?

Sou mais um. Tenho sete livros publicados, incluindo dois de ficção, três de crónica, uma biografia e um ensaio histórico. Sou alvo muitas vezes da pergunta: “E um romance, para quando?”, o que acho que há-de querer dizer qualquer coisa. É uma vitória, essa pergunta: é sinal de que se espera isso de mim, de que ganhei o direito a que se esperasse isso de mim. Mas ainda não é por causa disso que vou publicar coisas que me pareçam abaixo daquilo que posso fazer. De resto, e voltando à sua pergunta, há técnicas que domino melhor do que outros e técnicas que não domino de todo. E, sobretudo, não vou nas capelinhas, nos grupelhos, nas tertúlias e nos lambe-botismos diários a que alguns escritores da minha geração aceitaram converter-se logo à partida, de forma a poderem fazer “uma carreira”. Passar a vida inteira a beijar rabos, sem sequer uma vez poder ao menos escolher o rabo que se beija, não é para mim. Pelo menos enquanto eu conseguir evitá-lo, não será.

Tem estado algo afastado do jornalismo no que refere à actualidade noticiosa. Essa é uma aérea que já não o fascina?

A actualidade noticiosa interessa-me do ponto de vista da reportagem. Mas uma reportagem a sério demora um mês a fazer a rende quinhentos euros. Já não tenho idade para trabalhar de graça. Acompanho a actualidade noticiosa do golfe, para o jornal “O Jogo” e para a SportTV Golfe, e é tudo. Essa, sim, era capaz de acompanhar de graça. Mas imagine: ainda me pagam, os tontos.

O que pretende fazer no futuro? Continuar a escrever crónicas ou ir por outros caminhos?

Ir por outros caminhos, sempre. Mas também escrever crónicas, sempre. Todos os grandes escritores que conheço foram também exímios cronistas, mesmo que não praticassem o género na imprensa. A seu tempo, voltarei a publicar ficção. Entretanto, porém, não deixarei os jornais. Primeiro, porque prefiro escrever crónicas que talvez dessem belos romances a romances que, quando muito, talvez dessem crónicas sofríveis. Depois, porque acho os jornais o último meio de comunicação verdadeiramente romântico. Quando eles morrerem, como de certeza morrerão muito em breve, verá as saudades que teremos deles. Este livro também é uma homenagem que lhes presto.

Entrevista a HÉLIO VIEIRA. Diário Insular, 20 de Abril de 2011.

Segunda-feira, 28 de Junho de 2010
publicado por JN em 28/6/10

Qual o balanço que faz da forma com decorreram as Sanjoaninas 2010?

Para mim, foi um delírio absoluto. Embora tenha casa na Terceira, e de resto passe aqui várias boas temporadas ao longo do ano, é-me sempre muito difícil sair de Lisboa em Junho, um mês que costumo atravessar com a cabeça enfiada no motor, cheio de compromissos e chatices. Este ano, dei o meu grito do Ipiranga. A Terceira estava florida como há muito tempo eu não a via. E as festas foram inesquecíveis. Para o ano saio numa marcha, seja ela qual for. Ou escrevo uma letra. Ou asso umas bifanas. Daqui é que nunca mais ninguém me tira em Junho.

As Sanjoaninas 2010 tiveram uma redução de orçamento em relação a anos anteriores e menos dois dias de duração. Esse foram factores que tiveram influência na forma como decorreram as festas?

Dizem-me que, comparando com outras, esta foi uma edição menor. Não posso avaliar: há 18 anos que não participava. Mas o que me pareceu foi que continua quase tudo como dantes: rigorosamente perfeito. É claro que, se houvesse mais dois dias de festa, mais dois dias nos teríamos divertido. E que até a mim o fogo de artifício fez alguma falta. Mas ver as raparigas da Terceira a dançar em palco com o Tim Booth já foi fogo de artifício suficiente. Para ano de crise, não me parece que tenha sido nada mau.

Há quem defenda a necessidade de se rever o modelo das Sanjoaninas. De que forma é que as festas podem evoluir ?

Evoluir para uma coisa mais próxima daquilo que se faz em Lisboa? E ter gente a urinar pelas ruas, a vomitar pelos cantos e a enfeitar os carros estacionados com garrafas de cerveja de litro vazias? Não sei, não. Eu não conheço nada mais moderno do que a autenticidade. No sábado à noite, por exemplo, cantavam os James no Bailhão. Pois entre o público vendiam-se pevides e favas fritas – e na rua acima desfilavam bandas filarmónicas. É difícil ser-se mais autêntico do que isto. Os próprios James o notaram. Porque é que acha que deixaram toda aquela gente subir para cima do palco?

Concorda com a ideia de canalizar alguns dos recursos das Sanjoaninas para uma programação do Centro Cultural de Angra do Heroísmo mais alargada durante o verão?

Eu concordo com a ideia de termos um Centro Cultural pujante, claro. Mas é preciso que a população o frequente e, com isso, o fomente também. Nem um cartaz de cinema decente conseguimos ter – e, se se telefona para lá a perguntar que filme há hoje, atende-nos um senhor que olha para o cartaz do Tim Burton e nos diz que é “um filme de macacos, ‘Uma Aventura da Alice’ ou lá o que é…” Se um Centro Cultural funciona assim, é porque a população deixa que ele funcione assim. Porque a população se está nas tintas. E a  população, não tendo sempre razão, talvez tenha razão nisto. A cultura erudita distingue. A cultura popular une. Releia a letra da Marcha dos Coriscos e veja lá do que têm os micaeleneses inveja…

Entrevista a HÉLIO VIEIRA. Diário Insular, 29 de Junho de 2010.

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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"Os Sítios Sem Resposta",
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"O Terceiro Servo"
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"José Mourinho, O Vencedor",
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"Al-Jazeera, Meu Amor",
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2003
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