Domingo, 1 de Maio de 2011
publicado por JN em 1/5/11

 

Temas incluídos na edição de 25-29/4/2011 do programa "A Playlist de...", da TSF.

 

“No Teu Poema”, de Carlos do Carmo

 

Perguntem-me um dia exactamente qual é a melhor canção da música popular portuguesa, a canção mais acabada, em que a melodia e a letra mais cabalmente se fundam numa coisa só, e eu direi provavelmente “No Teu Poema”. Só para ser absoluto, isto é. O mérito é de José Luís Tinoco, compositor e letrista, mas também do próprio Carlos do Carmo. Não gosto de vê-lo ao vivo, pois parte sempre da presunção (errada) de que tem imensas coisas a conversar com o público. Mas, como intérprete, é inigualável, ao mesmo tempo intuitivo e deliberado, não deixando um só pormenor ao acaso. Comovo-me sempre quando alguém faz da obra um tributo ao trabalho e ao valor do trabalho.

 

 

“Darling I Need You”, de John Cale

 

Se um dia me perguntassem a qual, de todos os grandes concertos da história, eu mais gostava de ter assistido, eu escolheria provavelmente o de John Cale no Palais des Beaux Arts de Bruxelas, em 1992, onde se gravou grande parte de “Fragments Of a Rainy Season”. Toda a gente tem direito a um disco preferido – e o meu é esse “fragmentos de uma estação chuvosa”, uma ode que, sem o saber, John Cale escreveu aos Açores. A canção é escolhida quase ao acaso, porque qualquer uma servia. Para dizer a verdade, não resisto, aqui, à forma como John Cale canta a palavra “rattlesnakes”.

 

 

“Caracol”, de Carlos Medeiros

 

Deixem-me ser definitivo nisto: a música açoriana tem um “melhor disco de todos os tempos” – e esse disco é “O Cantar Na M’Incomoda”, de Carlos Medeiros. São vinte anos de pesquisas, à procura de temas do cancioneiro popular caídos no esquecimento – e, no fim, são nove canções (nove cantigas!) reinterpretadas segundo muitos dos conceitos do jazz, com sincopizações, desacertos e desconcertos, para mim, rigorosamente brilhantes. Este “Caracol”, narrativa sobre um homem que persegue um caracol que anda a comer-lhe as couves, é precisamente o tema que abre o disco. Preparem-se. *Nota: a versão aqui reproduzida é a da Brigada Victor Jara, infelizmente a única disponível online em formato vídeo.

 

 

“Let It Be Me”, de Ray LaMontagne

 

Chamam-lhe “o grande herdeiro de Jeff Buckley”, e isso não é desprestígio nem para um nem para outro. Jeff Buckley, desaparecido tão cedo, merecia um herdeiro – e, provavelmente, nenhuma alternativa seria melhor do que Ray LaMontagne. É a mais impressionante voz masculina que apareceu nos últimos anos – e este “Let It Be Me” mostra-o em todo o seu esplendor. Uma delícia.

 

 

“Regasu (Seiva)”, de Mário Rui (original de Orlando Pantera)

 

Se alguma coisa conseguiu empobrecer o universo da música caboverdiana, foi provavelmente o desaparecimento prematuro de Orlando Pantera, há uns anos, a escassos três dias de viajar para Lisboa a fim de gravar o seu primeiro disco. Felizmente, vários músicos foram recuperar as suas composições. Desta “Regasu (Seiva)”, conheço pelo menos três versões diferentes: a de Mayra Andrade, que é demasiado moderninha para ter chama; a de Leonel Ferreira, que já ouvi ao vivo mas não sei se está gravada; e esta, de Mário Rui, com arranjos datadíssimos, transpirando anos 70 por todo o lado e, no entanto, absolutamente mágica. *Nota: a versão aqui reproduzida é a de Mayra Andrade, infelizmente a única disponível online em formato vídeo.

 

 

“Prelúdio da Suite para Violoncelo Nº 1 em Sol Maior”, de Bach (versão Rostropovich)

 

Na pré-história da minha relação com a música, está a música erudita, que aprendi a ouvir nas salas e nos corredores do Conservatório Regional de Angra do Heroísmo – e a influência foi tal que, anos depois, ainda era música erudita o que eu ouvia aos gritos no walkman, aos sábados e aos domingos, quando fazia todo o percurso do autocarro número 50, a caminho dos jogos do Sporting. Escolhi uma peça especialmente pop, de resto várias vezes usada pelo cinema: o prelúdio da Suite para Violoncelo Nº 1 em Sol Maior, de Bach, na versão Rostropovich. Nos autocarros, aos 18 anos, eu preferia, confesso, Bartók, Rachmaninoff, Rimsky-Korsakov – tudo aos gritos também. Coisas da adolescência.

 

 

“The Libertine”, de Patrick Wolf

 

Há algo em Patrick Wolf que é génio e outro tanto que é surpresa. Ouvir a sua pop barroca é quase sempre como enfiar a boca num saco de plástico e respirar lá para dentro até não conseguir respirar mais. Desesperado, sufocante e, aliás, altamente dançável – é isso Patrick Wolf e é isso este “The Libertine”. Escrito aos 21 anos, imagine-se.

 

 

“Tajabone”, de Ismael Lo

 

Esta playlist também é uma espécie de autobiografia – e “Tajabone”, do senegalês Ismael Lo, representa uma espécie de marco no fim da minha adolescência (ou pós-adolescência, vá). Em 1998, andei um mês e meio por África, com 23 anos e os bolsos cheios de dinheiro, a cobrir uma competição desportiva sobre a qual apenas tinha de escrever umas vinte linhas por dia. Andei de mota, fui à caça, participei num arraial de pancada, apanhei uma disenteria – e em quase todos esses momentos esteve Ismael Lo. Pedro Almodôvar recuperou a canção mais tarde, para a banda sonora de um dos seus filmes. Fez bem. “Tajabone”, para mim, é a África toda.

 

 

“Dreams”, de Luís Bettencourt

 

Conhecemo-lo apenas como “o irmão mais velho de Nuno Bettencourt”, quando muito como “o irmão mais velho que Nuno Bettencourt diz ter-lhe ensinado tudo”. A verdade é que Luís Bettencourt deu, nos anos 80, um importante contributo ao desenvolvimento da música açoriana, mesmo se cantada às vezes em inglês. Este “Dreams” passava quase todos os dias na televisão, por volta das cinco para as oito da noite, a queimar tempo antes do Telejornal. Ouvi-lo é como regressar à mesa de jantar da infância. Não pode haver nada mais mágico do que isso.

 

 

“My Inspiration”, pelos DixieGang

 

Gosto tanto dos DixieGang que, quando me casei, as primeiras coisas que escolhi foram o lugar e a banda da festa: um monte alentejano com um terreiro dançante e os DixieGang ao vivo. Há alguma coisa no dixieland, o mais festivo dos estilos do old jazz, que me enche de alegria. O mais provável é que seja o facto de a música jorrar pelas paredes abaixo, de forma torrencial. Mas também pode ser, neste caso em particular, o clarinete de Paulo Gaspar. Eis, pois, uma versão absolutamente delirante de um standard: “My Inspiration”. *Nota: a versão aqui reproduzida é a da Dutch Swing College Band, infelizmente a única disponível online em formato vídeo.

 

           

“Teardrop”, de José González (original dos Massive Attack)

 

Há-de ficar bem expresso, ao longo desta playlist, o meu apreço por versões. Os autores apaixonam-se pelas coisas mais tontas nas suas obras, compostas tantas vezes com sangue, suor e lágrimas – e, às vezes, é preciso vir um segundo intérprete para depurá-la naquilo que ela tem de melhor. Este “Teadrop”, dos Massive Attack mas cantado aqui por José González (um sueco, curiosamente), é um glorioso exemplo disso. Desespero puro.

 

 

“Sou Do Fado, Sou Fadista”, de Ana Moura

 

Penso que, nos últimos anos, toda a gente terá escolhido a “sua” fadista. Eu comecei por Mafalda Arnauth, mas acabei por aborrecer-me com a pose de diva (e, aliás, com as letras que ela própria escreve, banalíssimas). Converti-me a Ana Moura – e o disco “Guarda-Me a Vida Na Mão” tem bastante responsabilidade nisso. Este é um dos seus melhores temas, “Sou do Fado, Sou Fadista”, que ainda por cima tem, no refrão, um momento de enorme desconforto, em que parece que vamos passar para sétima mas nunca passamos, criando uma espécie de “tempo fraco” que simplesmente nos tira o tapete. Brilhante.

 

 

“Frank’s Wild Years”, de Tom Waits

 

De Tom Waits, eu podia trazer aqui uns 30 temas diferentes, que cada um deles representaria algum momento importante para mim. Mas eu cito tanta vez “Frank’s Wild Years”, nas minhas crónicas de jornal, que era quase uma desonestidade não trazê-la aqui. Há um homem que se zanga com a vida e decide queimar tudo. O meu momento preferido é quando ele estaciona do outro lado da rua, a rir e a ver arder. É algo que há muitos anos venho tentando aprender: a capacidade de, perante um incêndio definitivamente descontrolado (e tenha sido esse incêndio sido ateado por mim ou por outrem), chegar-me para trás e simplesmente rir.

 

 

“Sparring Partner”, de Paolo Conte

 

Paolo Conte acompanha-me há muitos anos – e, tal como de Tom Waits, eu podia escolher uma série de canções diferentes para trazer aqui. Mas há algo neste “Sparring Partner” que eu não sei bem definir: talvez uma sensualidade antiga, talvez um jogo de roleta russa. Usei-o como genérico de um dos programas que tive na RTP-Açores e não podia, até por gratidão, deixá-lo de fora desta playlist.

 

“If You Go Away”, de Emiliana Torrini (original de Jacques Brel)

 

Há canções que marcam fases da nossa vida – e “If You Go Away”, a versão de Emiliana Torrini de “Ne Me Quittes Pas”, marcou, passe o confessionalismo, uma fase importantíssima na minha: uma fase de mudança, de desespero e de esperança. Tudo o que importa neste mundo é a memória – e, sabendo-a capaz de recuperar a memória, Jacques Brel seria seguramente o primeiro a render-se ao facto de a sua música ter sido vertida para o inglês.

 

 

“Por Una Cabeza”, de Carlos Gardel

 

Abrissem um dia uma votação para a melhor música do mundo, e eu consideraria seriamente votar no tango. Nenhuma música é tão recorrentemente uma narrativa (e eu sou um homem da narrativa). Escolhi o clássico dos clássicos, mas pela voz de quem de direito: “Por Uma Cabeza”, cantado por Carlos Gardel. A melhor do que isto já não chegamos, de certeza absoluta.

 

 

“Espalhem a Notícia”, dos Clã (original de Sérgio Godinho)

 

Eu não sou uma autoridade em alegrias da paternidade, mas imagino que sejam assim, como este “Espalhem a Notícia”. Sérgio Godinho é um dos grandes criadores da música pop portuguesa e Manuela Azevedo uma das suas grandes intérpretes. Acontece que Sérgio Godinho não tem voz e que Manuela Azevedo não tem canções, pelo menos feitas pelos Clã propriamente ditos. Juntar os dois, com os Clã por trás, dá nisto. Deus os abençoe a todos.

 

 

“Come Pick Me Up”, de Ryan Adams

 

Há alguma coisa em “Come Pick Me Up”, de Ryan Adams, que rescende ao mesmo tempo aos Estados Unidos profundos e ao mundo inteiro. A utilização da harmónica talvez suporte o regionalismo, mas são provavelmente versos como “screw all my friends/ they’re all full of shit” que suportam a universalidade. Ryan Adams nasceu exactamente no mesmo ano que eu: 1974. E, sejam ou não esses dois versos marginais, parecem-me sempre o retrato de uma geração: de uma geração que perdeu o apreço pelo valor da amizade. Eu lamento-me com ele.

 

 

“What a Difference a Day Makes”, de Dinah Washington

 

Esta playlist está especialmente sombria, o que se calhar também é denunciador do meu carácter. Segue, pois, um tema solar, para desenjoar um pouco: “What a Difference a Day Makes”, de Dinah Washington. Para a Catarina, a quem também dedico a “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa”. Faz de conta que é uma espécie de disco pedido.

 

 

“Tunnel Of Love“, dos Dire Straits

 

Podem chamar-lhe guilty pleasure, se quiserem. Apesar do muito que os Dire Straits fizeram de mau e de fácil, “Tunnel Of Love” permanece a canção perfeita, com a estrutura perfeita, a orquestração perfeita e o ritmo perfeito também. Não está in gostar dos Dire Straits, mas a verdade é que se contém neles quase tudo o que de bom e feliz e luminoso houve na minha adolescência. Segue-se uma viagem no tempo, portanto.

 

 

“Foi Por Ela”, de Fausto

 

Não sei se é uma figura de estilo, se é apenas estilo. A verdade é que as “discordâncias temporais” de “Foi Por Ela” são um dos mais belos e inventivos recursos estilísticos da canção portuguesa. De Fausto Bordalo Dias, há sempre dezenas de canções que podem escolher-se. Mas: “Foi por ela que eu já danço a valsa em pontas” – só este verso justificava tudo. Eis, portanto, um grande tema de um génio absoluto.

 

 

“Limelight”, de Gerry Mulligan

 

Foi compagnon de route de Chet Baker, mas depois ganhou asas. Gerry Mulligan escolheu o saxofone barítono, o mais equilibrado de todos os elementos da extensíssima família instrumental lançada por Adolphe Sax, e tornou-se o seu supremo intérprete. Os seus discos a solo trazem sempre arranjos belíssimos – e a nenhum deles alguma vez escapa o lado lúdico da música. Este “Limelight” conta-nos uma história, e essa história é divertida. Um grande tema.

 

 

“Space Oddity”, de David Bowie

 

A música como narrativa. Major Tom aparece aqui e reaparece numa série de canções posteriores – inclusive em “Ashes To Ashes”, onde se explica que se trata, na verdade, de um junkie. Talvez seja a escolha mais óbvia desta playlist, mas eu não podia deixar David Bowie de fora. Para além de tudo, ele, sim, é the coolest mother-fucker in town.

 

 

“Fado Sete-Estrelo”, por Mariana Abrunheiro (original de José Medeiros)

 

Mariana Abrunheiro, que é originalmente uma actriz, destacou-se como vocalista dos Madredeus nos tempos da Banda Cósmica, mas antes disso já cantava com José Medeiros, cineasta e compositor e músico que, na verdade, foi a melhor coisa que alguma vez aconteceu à cultura pop dos Açores. Este “Fado Sete-Estrelo” fez parte da banda sonora de uma das séries televisivas de Zeca. Hoje, quando ele sobe ao palco, um dos momentos mais esperados da noite é sempre esse em se lhe junta Mariana para o cantar. Ei-la.

Participação especial. TSF, de 25 a 29 de Abril de 2011

2 comentários:
De qim a 17 de Novembro de 2011 às 19:18
http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?content_id=918071&audio_id=1845116 Estou a ouvir novamente pelo Gardel, Caracol, e mais alguns.
De Manuel Carvalho a 5 de Março de 2012 às 10:26
Óptima selecção!!
Poder-me-ia dar uns tópicos, para o meu e-mail, de como se faz uma transposição, ou se baixa um qualquer vídeo ou canção da internet para um blog ou e-mail, tal qual como este exemplo? Será necessário, evidentemente, uma ferramenta. Qual é ela, a que utiliza?

Comentar post

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
pesquisar neste blog
 
arquivos
livros de ficção

"Os Sítios Sem Resposta",
ROMANCE,
Porto Editora,
2012
Saber mais


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas",
CONTOS,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO,
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa
CRÓNICAS,
Porto Editora,
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português",
OBRA COLECTIVA,
Círculo de Leitores,
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)",
CRÓNICAS,
Esfera dos Livros,
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor",
BIOGRAFIA,
Publicações Dom Quixote,
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor",
CRÓNICAS,
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui